Geovaldo de Carvalho
POLÍTICA E BASTIDORES
O fim de semana me impactou com a morte do jornalista e escritor, Thomas Bruno, com quem tive boas prosas recentemente. Amigo do meu filho, mesmo sendo ambos membros da Academia de Letras, ainda nós não tínhamos nos encontrado para bom bate-papo.

Soube, ele tinha uma admiração pela minha trajetória jornalística e eu pelo seu trabalho. Sua morte, prematura e ainda com muito tempo pela frente, deixando para trás uma legião de amigos e muitos projetos.
Do nosso primeiro encontro, registrou no jornal A União, em 23 de novembro de 2024, o artigo abaixo registrando o momento, que poderia ter se repetido por décadas. Mas, infelizmente, mergulhou para oe eterno para encontro com o criador.
Segue seu artigo:
“Lá em Manoel
A propósito de uma crônica que publiquei no início do mês sobre a refundação do jornal A Gazeta do Sertão, na longínqua quadra cronológica de 1981, o consagrado jornalista paraibano Geovaldo Vieira de Carvalho me convidou para encontrá-lo. O motivo: “Quero te passar um material”. Na verdade, morando na capital da Parahyba, Geovaldo costuma vir à Campina às quartas-feiras e é frequentador assíduo do restaurante Manoel da Carne de Sol onde encontra alguns amigos, há muitos anos.
Numa Campina de outrora, lugares como o Chopp do Alemão, o Miúra (que hoje não mais existe) além do próprio Manoel da Carne de Sol foram conhecidos por abraçar esses encontros fraternos, a boemia saudosa de outros tempos. Tive a oportunidade de conhecer esses tesouros históricos da urbe que se consolidaram como reduto de boêmios. Um detalhe une esses lugares simbolicamente, e que sempre me chamou a atenção, é que algumas de suas paredes são ornamentadas com fotografias, verdadeiros troféus demonstrando as presenças de autoridades, políticos (governadores e presidentes da República) e até artistas que passam em turnê pela cidade.
Outro detalhe é a aconchegante decoração, um estilo clássico em que o madeiramento e as fundições escuras estão nos assentos, paredes e divisórias, proporcionando que muitas mesas se tornem aconchegantes câmaras em uma realidade sensível altamente intimista. A iluminação morna completa o cenário afeito às amenidades. Bom gosto não é mesmo? E nas primeiras horas daquela quarta-feira Geovaldo Carvalho me confirma: “Me encontre que vou lá pra Manoel, às 19h!”.
“Combinado!”, respondi prontamente.
Meu velho amigo José Edmilson Rodrigues foi quem nos apresentou e eu, como forma de celebração, o avisei que Geovaldo queria me encontrar: “Tenho uma reunião no fim da tarde, se der eu apareço”, respondeu-me o poeta. Fui trabalhar ansioso. Sempre considerei Geovaldo um grande jornalista. O pseudônimo Baby Vieira, seu tempo na capital federal, sua coluna diária e as inúmeras vezes em que foi disputado por jornais impressos; diretor d’A União, Diário da Borborema, Gazeta do Sertão e toda sua trajetória na imprensa, esses são só alguns detalhes de sua carreira que merece uma biografia de fôlego. Ele é um daqueles monstros sagrados que temos e devemos saber valorizar.
Das coincidências da vida, através de um amigo em comum, conheci Giuseppe, seu filho, e vim descobrir o parentesco depois. Voltando a história, na boquinha da noite tomei um taxi até Manoel da Carne de Sol. Entrei devagar observando os lustres, as fotografias antigas de Campina, ao mesmo tempo em que meu apetite é inundado pelo perfume da carne de sol assada, prato tradicional da casa que estava indo ser saboreado por um casal de clientes. Perguntei ao garçom qual é a mesa preferida do Geovaldo e sentei-me na cadeira que ele mais gosta. Passados 10 min, ele chega. Eu me levanto e convido: “Esse é o seu lugar”. Ele sorriu respondendo: “Senta nessa aqui, essa da cabeceira é do ‘dono’”. E logo eu descubro quem ele esperava, seu amigo Geraldo Melo. Ao sermos apresentados, com sua fala pausada e firme, Geraldo comentou a vontade que tinha há tempos de me conhecer e teceu uma série de elogios às minhas crônicas, que lê com bastante entusiasmo.
Quem primeiro comentou que Geraldo gostaria de me conhecer foi Daniel Duarte. José Edmilson e Ronaldo do sebo também fizeram o mesmo comentário acompanhado de dois detalhes: o primeiro que ele é um grande leitor e o segundo que é bastante criterioso a ponto de criticar livros e textos sem qualquer preocupação com o autor. A minha felicidade foi imensa! Momento em que Geovaldo desembrulha uma pasta lilás, com o exemplar de 25 de maio de 1981 do Gazeta do Sertão (que escrevi dias atrás), uma edição fac-símile do primeiro número da Gazeta de 1888 e uma edição do tabloide A Tarde, que circulou na cidade na década de 1960. Um baita presente.
Geraldo e Edmilson (que chegou depois) apreciaram e elogiaram. Numa noite agradável, conversamos sobre “Deus e o mundo”: futebol, política, livros, leituras e uma afinidade todos nós temos, a admiração pelo cronista-mor Gonzaga Rodrigues. Após bebericar algumas cervejas, Geovaldo despediu-se tomado por uma dor de cabeça e Edmilson foi descansar. Ficamos Geraldo e eu em um longo papo, e me impressionou o seu nível de leitura. Bibliófilo que é, comentam que possui um imóvel tomado por livros. As portas cerraram-se por volta da meia-noite nos convidando a partir. Quando a conversa é boa, não vemos o tempo passar. Fui agraciado duplamente: com um grande presente e com o maior deles: dois bons amigos. Nos despedimos e combinamos de repetir a dose”.